quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Começou a antropofagia na TV brasileira

O Alexandre Haubrich, no seu blog sobre jornalismo, já destrinchou o que eu tinha constatado ontem à noite ao assistir, no G1, a reportagem do Jornal Nacional sobre a denúncia do MP contra o Edir Macedo: uma matéria totalmente tendenciosa.

Nota-se isso só ao ver quantos minutos a mesma tem no portal de notícias da Globo. Não sou fã de telejornais, mas a meu ver, sete minutos é uma imensidão que só um fato de proporções gigantescas justificaria tal espaço no dito principal telejornal da televisão brasileira. Algo como o 11 de setembro, a queda do Collor, uma guerra, um ataque terrorista. Mas não uma matéria sobre a lavagem de dinheiro que o bispo-mor da IURD faz com as doações que recebe dos fiéis. Acho que nem os deputados envolvidos no Mensalão, ou o Waldomiro Diniz, ou o Hildebrando Pascoal, ou até mesmo o Dossiê Vedoin ganharam tanto espaço quanto o Macedão na Globo. E isso que nem vou falar sobre o teor da matéria, que pra quem já estudou e tem uma certa experiência no jornalismo, sabe que ela já fala por si só por que está ali. O último vídeo mostrando o bispo orientando seus pupilos sobre como angariar doações - que, diga-se de passagem, tá há 14 anos circulando na web - é a ruptura da última camada dérmica da Globo para a exposição de uma fratura.

Sim, fratura. Até porque, quem ainda não notou que a Globo tá se remoendo de raiva por causa desse reality show chinfrim da Record alcunhado de A Fazenda, ou não assiste TV ou é cego mesmo. Primeira prova disso foi quando lançaram esse tal Jogo Duro, que surgiu da noite pro dia, sem nenhum motivo plausível. Assisti raros trechos do programa, que em alguns momentos - em relação à pressa de angariar audiência sem uma fórmula efetiva para tal - chegou a lembrar aquele Território Livre, da Sabrina Parlatore, que passava na Bandeirantes. Parece que simplesmente largaram o programa ali pra ver o que acontecia, e se poderia bater de frente com a Record. Ledo engano.

Três ou quatro semanas depois, reviveram No Limite da forma mais marqueteira possível, abrindo as linhas telefônicas para os telespectadores escolherem quem deveria sair dos escolhidos, numa espécie de enxerto de ideias cunhadas no Big Brother. O desespero chegou a esse ponto. Lembrou-me os anos 90, quando o SBT de Senor Abravanel mudava a grade de programação a cada semana, deixando o telespectador completamente perdido sobre o que assistir em cada dia.

E finalmente, a matéria do JN - que, sinceramente, não esperava tal teor.

Mas hoje a questão toda foi mais longe ainda. Como um membro de gangue conclamando seus companheiros para uma retaliação um dia depois de ter apanhado de rivais, a Record não pensou duas vezes - se é que pensou - em dar o troco. E veiculou hoje, no Jornal da Record, uma matéria que - calculo eu - teve mais de dez minutos de duração, contendo todos os podres possíveis e imagináveis da Globo.Informações sobre o surgimento da emissora de Roberto Marinho através da Ditadura Militar Brasileira; coros de manifestantes durante o Diretas Já contra a Rede Globo; a eleição de 1989 e a manipulação do debate entre Lula e Collor; a eleição de 1994; muitas imagens de Brizola atacando a emissora; o direito de resposta de Brizola no JN, lido por Cid Moreira; e até mesmo fotos de Roberto Marinho conversando com um ditador brasileiro na época. De tudo um muito.

Não vivi a Ditadura nem o tempo de jornalismo político-partidário no Estado. Houve, é claro, uma mudança na forma de se manipular através de meios de comunicação, mas a essência continuou a mesma. As emissoras estão aí, cumprindo seu papel de formadoras de opinião e servindo a seus proprietários. Entrementes, é inegável que, nesse fato, elas descaramente mostraram suas faces. Fizeram o que não fariam em tempos idos. Tudo pela briga da audiência.

A minha vontade agora é de saber o que vai acontecer daqui em diante. Mas uma coisa podemos comemorar: as emissoras estão mostrando suas verdadeiras faces e provando para quem estão servindo, e para quais interesses estão trabalhando. Que não fazem jornalismo em defesa de um povo ou para o interesse do mesmo, mas única e exclusivamente para o seu próprio sustento. E nesse joguinho de interesses, estão se entredevorando. Que continuem a briga entre comadres: quem sabe o resultado disso possa ser algo que justifique um diploma de jornalista.

P.S.: Após escrever este post, li uma notícia sobre o assunto no Terra. A matéria deste portal termina com chave de ouro: "Por ironia, o telejornal foi apresentado por dois ex-globais, Ana Paula Padrão e Celso Freitas. "
O link --> http://terramagazine.terra.com.br/interna/0,,OI3919787-EI6578,00-Jornal+da+Record+ataca+Rede+Globo.html

3 comentários:

brunette disse...

A Ana Paula Padrão, se é realmente "de confiança" deve estar puta da cara pq a emissora fez um REPÓRTER gravar um EDITORIAL como se fosse MATÉRIA.

Será que eles não tem nenhuma denúncia nova contra a globo, além daquelas que a própria globo disponibiliza no próprio portal, no memória globo?

por que não falam da ação do MPF contra a RBS de SC, filiada da Globo? É uma bobagem, mas pelo menos é mais quentinho.

Frederick Martins disse...

Bom, se for por esse lado, de uma certa forma a Globo também tocou numa ferida da Record que todo mundo sabe que não é nova.

E não sei por que ninguém ainda não levantou voz contra essa campanha publicitária da Globo de não falar nome de empresas em sua programação que não sejam anunciantes (Ulbra que vira Canoas, Red Bull Racing que vira RBR, essas coisinhas assim). Daria uma bela discussão. E um bom motivo pra criticar a emissora.

brunette disse...

é um motivo recente, pelo menos.